Discurso do Presidente da Assembleia Municipal no Dia do Município
Tinham os Romanos um deus com dois rostos: com um olhava o passado, com outro espreitava o futuro. Chamavam-lhe Jano, o deus das duas faces, que guardava Roma, lá do alto de uma das suas colinas.
Vim aprendendo, à medida que os acasos da fortuna me fizeram estudar o tempo e a história, a simbologia desta divindade que os Romanos fizeram seu guardião. E aprendi, também, nesse percurso, que a única atitude sensata perante a história é a de Jano.
É, afinal, o que se pede a cada um de nós: os pés no presente, um olhar lançado sobre o passado, que é a nossa raiz, outro olhar lançado sobre o futuro, que é o nosso rumo. Essa foi, de resto, a atitude daqueles que mais marcaram a história do mundo e da Europa. Lembro-me, sobretudo, dos que estiveram nos alicerces da idade moderna, os prodigiosos homens e mulheres da Europa dos séculos XV e XVI – quanto mais descobriam o passado, mais afirmavam o presente, mais projetavam o futuro. E esse futuro somos nós.
Vale a pena sublinhar essa atitude, hoje, o tempo que parece ser de todas as encruzilhadas, de todas as dúvidas, de todas as angústias, de todas as incertezas.
Parecerá estranho que tenha iniciado esta intervenção com a evocação de tempos tão distantes e de mitos que já pouco ou nada nos dizem. Pois bem: assim comecei, porque sei bem que não falta quem se pergunte que sentido faz comemorar o dia da cidade, o dia do concelho, num tempo aparentemente sem esperança. E eu direi que faz todo o sentido.
Faz sentido, desde logo, porque nos leva à revisitação das raízes; e essas são a nossa identidade, o sangue e a seiva que carregamos connosco desde que rosto temos. Uma identidade feita de caminhos vários e nem sempre lineares. Uma identidade feita de mulheres e homens onde o herói se mesclou com o vilão, onde o grandioso caminhou paredes meias com o fracasso, onde a altivez fez percurso lado a lado com a humildade. Porque os caminhos da História estão longe de ser lineares, simples, uniformes; são, antes, complexos, ínvios, traiçoeiros, plenos de encruzilhadas e de sendas sem destino certo.
É, afinal, esse passado que hoje celebramos; não para nele narcisicamente nos revermos, mas para, a partir dele, nos reconstruirmos.
Não pretendo iludir nas roupagens da retórica os sinais dos tempos de crise e incerteza que são os nossos.
Mas ocorreu-me, por acaso, deitar mão do nosso poeta maior, Francisco Rodrigues Lobo, ele que foi apanhado, em meio da sua jornada, pela epidemia que, nos começos do século XVII, dizimou boa parte da região, de suas gentes, de seus gados, seus pertences, seus haveres; da epidemia que parece ter-lhe dizimado o passado e as sementes do futuro.
Assim retratava o poeta:
Que novas se podem dar
donde tristes se dão,
senão taes que com chorar
acabe de arrebentar
do que sente o coração?
Vi muito gado perdido,
sem pastor, sem pegureiro,
por entre as balsas metido;
aqui balava um cordeiro,
sem ser da mãe socorrido.
Tudo está como deserto;
o mato só se povoa,
e n’aldeia em descoberto,
assim como por acerto,
se divisa ua pessoa.
Estão sem gado os currais,
e os pastores sem abrigo;
nas brenhas e pedregais
moram, como em tempo antigo,
os homens e os animais.
Alonga-se o poeta na descrição de um cenário de desolação, que a história, infelizmente, viria a repetir. Não há muito, evocámos a destruição de Leiria, em resultado das Invasões Francesas.
E, no entanto, sobrevivemos. Porque é da nossa condição sobreviver. Porque somos feitos de gentes, mulheres e homens, que não sabem olhar senão o futuro.
Alguns desses recebem, hoje, a homenagem de todos nós.
De entre eles é justo lembrar dois que a foice sinistra nos levou súbita e prematuramente, quando tanto deles havia a esperar: José Ribeiro Vieira e Leonel Costa. Se aqui os refiro, foi porque o seu exemplo de entrega à causa pública, o seu exemplo de dedicação à comunidade de que eram parte assumida e integrante, a sua consciência diariamente repetida de uma cidadania ativa nos exige que os destaquemos. Um foi vereador da Câmara Municipal, o outro era, à data da sua partida, membro da Assembleia Municipal a que tenho a honra de presidir. Ambos, cada um de seu jeito, foram cidadãos empenhados e empreendedores, orgulhos dos seus e orgulho nosso e da região e concelho a que pertencemos. Honramos, neste dia da cidade e do município, a sua memória; e prestamos-lhes sentida e merecida homenagem, aquela que só aos melhores dos melhores é devida. Na pessoa de um e outro, homenageamos todos os nossos concidadãos que partiram ao longo do último ano e todos os que hoje são homenageados neste ritual de que somos parte.
Muitos mais mereceriam esta homenagem. Porque aquilo que somos não se fez senão à custa de muitas vontades, de muitas entregas, de muito querer; e de muito risco, de muito esforço, de muita capacidade empreendedora.
Senhor Presidente da Câmara Municipal,
Minhas senhoras e meus senhores
Leiria fez-se nas múltiplas encruzilhadas da História, à custa da grandeza de alma de suas gentes. Assim nos demos à admiração de outras regiões, de outras cidades, de outros povoados. Assim fomos crescendo, entalados entre grandezas vizinhas, sem nunca perdermos a nossa identidade. Moldámo-nos em provas de fogo, como no fogo se molda o vidro. É essa a nossa essência. É essa a nossa raiz. Só pode ser essa a semente do nosso futuro.
Hoje, que paramos, uma vez mais, para nos olharmos, gostaria eu de que em coesão, como todas as famílias em dia de festa, hoje, que nos juntamos à volta da celebração do que somos, será tempo, decerto, de questionarmos o presente, com a consciência das fragilidades de que é feito; mas não é menos tempo de olharmos o passado, que nos ensinou o caminho para chegarmos até aqui. E, atentos um e outro, o que para trás nos ficou e é pertença do nosso retrato e o que hoje temos por certo e é semente do nosso peregrinar inconstante, atentos ambos, é tempo de termos consciência de que o futuro é aquilo que os nossos passos quiserem que seja. Porque sempre assim foi. E essa será, porventura, a marca última da nossa esperança.
Assim saibamos nós merecer o passado que hoje evocamos. Assim saibamos nós merecer aqueles que hoje homenageamos. Assim saibamos nós merecer a história que hoje começamos a construir.
