Intervenções na cerimónia evocativa do 25 de Abril de 1974
Jornalista Adelino Gomes, orador convidado
"Antes ainda das saudações protocolares, desejo fazer um ponto prévio, que é, ao mesmo tempo, um esclarecimento e uma homenagem, várias homenagens
Ponderei anteontem e ontem todo o dia, se deveria estar aqui neste momento, nesta função.
A dúvida impôs-se-me depois de tomar conhecimento da decisão tomada pelos militares da Associação 25 de Abril de não comparecerem este ano nas comemorações oficiais da data que aqui celebramos.
Conhecemos todos o comunicado, não vou repeti-lo.
Mas quero dizer-vos que me tocou muito aquele grito de inconformismo de homens que, faz hoje 38 anos, arriscaram vida, carreira, e conforto dos seus, e que hoje, já retirados do palco, vêm levantar a voz pela dignidade de um povo, pela aplicação da justiça e contra o aprofundamento das desigualdades.
Ponderei não comparecer a este acto, solidarizando-me com aquele gesto simbólico.
Decidi vir, porém, e aqui estou, mantendo o compromisso que assumi há muitas semanas já, com o senhor Presidente da Câmara.
Faço-o em homenagem, precisamente, ao poder autárquico democrático, uma das conquistas do processo de redignificação da nossa vida colectiva iniciado faz hoje 38 anos e que importa absolutamente preservar.
E em homenagem, também, como tinha decidido muito antes da saída deste comunicado a um dos artífices mais importantes dessas conquistas – Fernando Salgueiro Maia.
Permitam-me ainda que lembre aqui neste momento o eurodeputado Miguel Portas, meu antigo companheiro de lides jornalísticas e amigo, ontem falecido em Bruxelas, e duas figuras de leirienses ilustres também desaparecidos há pouco: José Ribeiro Vieira e Carlos Martins.
Feito o esclarecimento prévio, inicio então o discurso.
Não sem que antes deixe uma derradeira homenagem, esta estritamente pessoal, ditada pelas minhas raízes maternas, nos Marrazes. A minha mãe, Maria de Jesus. E ao meu avô, António D’Oliveira Clemente, mais conhecido por António Perpétua. Camponês rendeiro de pequenas courelas de terras banhadas pelo Lis – uma delas a poucas centenas de metros deste Teatro, nos campos por detrás da Moagem e do convento e capela de S. Francisco, junto de cujas paredes cresciam pessegueiros que me deram a comer os mais saborosos pêssegos da minha vida.
Quando recebi este convite, que naturalmente me honrou mas me preocupou também - (ninguém é profeta na sua terra, por que é que da minha terra me hão-de estar a chamar?...) - quando recebi este convite, dizia, perguntei-me qual o ângulo de abordagem que deveria escolher.
Estava para mim claro que não deveria ser o político strictu sensu – para isso há políticos profissionais, e há os politólogos, e há os comentadores – qualquer destas três coisas nunca fui, nem nunca tive vontade de ser.
Restava então, evocar o dia 25 de Abril.
Mas sobre isso já falaram nestes 38 anos políticos, generais, poetas, cidadãos - tanta gente, tanta vez. Eu próprio, muitas vezes…
Porque, quis o acaso e a minha boa estrela – de cidadão e de repórter – que lá haveria de estar, àquela hora, naquele pedaço de Lisboa – 3 ou 4 quilómetros quadrados de área – onde o militarmente essencial se passou.
Já o contei, em inúmeras ocasiões; e além disso, a gravação aí está em disco, para quem queira ouvir a narrativa com os sons e a minha voz de então…
Nada posso alterar, nada posso acrescentar: as palavras que lá estão são o retrato sonoro que eu fiz, do que vi e ouvi, e fui capaz ou incapaz de descrever…
Mas lembrei-me depois: embora tenha narrado mil vezes essa história, há hoje, aqui, algo de diferente, e de novo, e de especial.
1º É o poder autárquico democrático, nascido naquele dia e eleito pelos meus conterrâneos, quem me convida;
2º Esse poder autárquico democrático governa, 38 anos depois, a cidade onde dei os primeiros passos no pensamento crítico sobre a organização da polis e a cidadania(nas aulas de Filosofia e de OPAN, que o saudoso professor José Gonçalves dava de forma que nos abria os olhos, em vez de no-los fechar, como o regime desejaria)
Última e decisiva razão: porque durante esse período de aprendizagem, precisamente nessas aulas, no anexo do Liceu Francisco Rodrigues Lobo, me cruzei – eu de Letras, ele de Ciências - com um colega (de quem não fui especialmente amigo, devo dizer). Mas que uma década e pouco depois, no tal pequeno quadrado de terra onde a sorte de 48 anos de regime ficou traçada sob seu comando, me daria a primeira, e eu diria mais bela, definição do que foi - estava a ser, iria ser - o dia 25 de Abril de 1974.
Chamava-se, esse colega, Fernando Salgueiro Maia. É a ele que dedico esta história. Da qual ele é, como se torna óbvio, o actor principal. Juntamente com o povo, como ouvirão já a seguir.
As memórias vivas que guardo do dia 25 de Abril de 1974 vão num crescendo.
Começam no aviso, recebido pelas 6 e meia da manhã, de que Lisboa estava cercada. E acabam na visão absolutamente impensável para nós, ao tempo, de uma viatura blindada a sair do quartel general da GNR, no Carmo, em Lisboa, com o chefe do Governo, Marcelo Caetano, e com alguns dos seus – até essa manhãzinha ainda todo poderosos ministros – detidos, a caminho da Pontinha e do exílio.
Eram umas 7 da tarde.
O que vou recordar não trará novidade aos mais velhos que aqui se encontram.
O seu eventual interesse estará na componente testemunhal destas memórias.
Evoco três desses momentos, os mais fortes no plano pessoal.
Neles, Maia está sempre presente.
Desculpem que eu esteja também. Não como actor, é óbvio.
Mas primeiro, como colega que encontra um colega em pleno Terreiro do Paço. E depois, como repórter, por gentileza de Paulo Coelho e de Pedro Laranjeira, dois jovens enviados para a rua logo de manhãzinha pelo programa Limite, da Rádio Renascença (aquele que havia emitido o Grândola Vila Morena), os quais, generosos, me emprestaram o seu microfone, integrando-me na equipa.
1º Momento
Meia hora antes do reencontro com Maia eu era ainda, apenas, um entre o milhar e meio, dois milhares de pessoas, talvez, que se aglomeravam nas ruas em volta da Praça do Comércio; umas, vindas da outra banda e impedidas de passar a caminho do emprego; outras, correndo em sentido contrário, em direcção à baixa lisboeta para perceberem o que se passava.
Eu encontrava-me neste último grupo. E fazia parte daqueles, não sei se muitos, que se interrogavam sobre o sentido daquela acção militar.
Trabalhava na altura numa revista da oposição, a Seara Nova. Tinha notícia, como quase toda a gente no meio, das conspirações do então chamado Movimento dos Capitães. Conhecia mesmo dois desses "capitães", porque a seguir à intentona das Caldas da Rainha, em 16 de Março, o movimento tinha dado uma conferência de imprensa clandestina nas instalações da revista. A pedido insistente de um dos conspiradores, o capitão Teófilo Bento, eu próprio tinha feito - nos traços incertos de quem nunca foi dotado para o desenho – um croquis das instalações da RTP, no Lumiar, que a unidade dele, a EPAM, ali a dois passos, teria a missão de ocupar, quando chegasse a hora.
Mas, também sabíamos que se conspirava do lado oposto. E que se admitia como provável o desencadeamento de um golpe preventivo, em defesa do regime, por parte do general Kaulza de Arriaga.
