Nos anos 60 só se podia entrar na cidade de Leiria calçado
Nos anos 60, a maior parte das pessoas andava descalça. Contudo, para entrar na cidade de Leiria era necessário estar calçado, pelo que era frequente ver pessoas dos meios rurais com as botas penduradas nos ombros, que só se calçavam quando chegavam à Fonte Grande (Fonte das Três Bicas). A revelação foi feita por Mário Matias, tertuliano e Presidente do Conselho de Administração da Caixa Agrícola de Leiria, durante a "Tertúlia (re)Conhecer Leiria", que decorreu no sábado à tarde, no m|i|mo – museu da imagem em movimento, em Leiria.
O Presidente do Conselho de Administração da Caixa Agrícola de Leiria contou que, como vivia em Leiria, estava habituado a andar calçado, o que o impedia de jogar futebol com os colegas na escola, já que se costumava jogar descalço. Ao perceber a desvantagem que tinha em relação aos amigos, Mário Matias optou por ficar na baliza, a única posição em que podia jogar calçado.
Apesar de já existirem alguns automóveis em Leiria nos anos 60, a maioria das pessoas deslocava-se de burro. Nessa altura, os agricultores que vendiam os seus produtos no Mercado de Sant’Ana descarregavam a mercadoria à porta e iam deixar os burros no estábulo, que ficava no local onde é hoje a rodoviária. Mário Matias não perdeu a oportunidade de ganhar uns trocos, no período das férias. "Fui um dos primeiros arrumadores de viaturas de Leiria", brincou.
Já António Moreira de Figueiredo, tertuliano e arquiteto do Município de Leiria, recordou a emoção que sentia quando descia a Calçada do Bravo de carroça, nas suas viagens entre Santa Eufémia e Leiria. "Começávamos a apertar as rédeas para a carroça não deslizar. Só parávamos cá em baixo."
Nessa altura, o rio Lis tinha um papel muito importante. Alda Gonçalves, tertuliana e antiga responsável pelo Arquivo do Município de Leiria, contou que o rio era utilizado para realizar concursos de pesca desportiva e provas nacionais de natação. "Miguel Franco [ator e dramaturgo] era o melhor nadador de bruços no rio Lis", afirmou. Carlos Fernandes, tertuliano e diretor do Jornal das Cortes, recordou que o rio era ainda usado para banhos, passeios de barco, recreio e para lavar a roupa.
Durante a tertúlia, recordou-se ainda uma figura muito conhecida em Leiria, nos anos 60, o Dr. Lisboa, conservador do Registo Predial. Alda Gonçalves contou que quando foi a inauguração do Tribunal de Leiria, Dr. Lisboa manifestou-se desagradado por ter uma secretária tão grande num gabinete tão pequeno, pelo que lhe arranjaram uma secretária mais pequena, mas "velha e cheia de mazelas".
Não satisfeito, o Dr. Lisboa decidiu mandar fazer uma secretária no carpinteiro. Como não tinha uma régua à mão, utilizou o cinto, um lápis e um pau para tirar as medidas. Quando chegou ao carpinteiro e este lhe pediu as medidas, o Dr. Lisboa seguiu o mesmo procedimento: tirou o cinto das calças, o lápis e um pau para dar indicações sobre as medidas.
Estes e outros episódios ocorridos nos anos 60 foram revisitados no sábado passado, no m|i|mo, por perto de 100 pessoas, que assistiram à primeira tertúlia promovida pelo Município de Leiria, que teve início com a projeção do filme "Leiria, 1960", de António Campos, realizador de Leiria.
Alda Gonçalves, António Moreira de Figueiredo, Augusto Mota, Carlos Fernandes, Mário Matias e Joaquim Vieira foram os primeiros tertulianos convidados. As próximas tertúlias decorrerão nos terceiros sábados de cada mês entre os meses de fevereiro e junho, ou seja, nos dias 16 de março, 20 de abril, 18 de maio e 15 de junho.
