“letra²” regressa a Leiria com segunda edição mais intimista da mostra de poesia sonora, dita e falada
Depois de uma estreia marcante no ano passado, que contou com nomes como Christian Bök, Cia Rinne e Fernando Aguiar, a mostra de poesia sonora, dita e falada letra² regressa a Leiria para a sua segunda edição. Com curadoria de Sal Nunkachov, o evento aposta agora num formato mais intimista, privilegiando espaços interiores que convidam à escuta atenta e à imersão nas múltiplas dimensões da voz e da palavra.
O espaço térreo da Void recebe o primeiro dia da mostra, que abre com Luana P. Novo, acompanhada por Ricardo Brito e Lia Cachim, na apresentação de Psicose, lançado este ano pela Subsolo. Uma viagem densa e introspectiva entre o sussurro e o grito, num diário de confrontos e sobrevivência. Segue-se Alfredo Costa Monteiro, português radicado em Barcelona, com Hearsay: Poèmes de bouche, murmurs de tête, uma peça vocal em múltiplas línguas que transforma a voz num mantra caleidoscópico de ressignificações.
O primeiro dia conta ainda com Jaap Blonk, referência mundial da poesia sonora e conhecido pela sua interpretação da Ursonata de Kurt Schwitters. Blonk apresentará Dr. Voxoid’s Next Move, performance onde a voz é levada ao extremo num espetáculo sempre imprevisível.
A noite termina no Atlas, com uma pós-festa e performance de Nuno Marques Pinto (aka Nu No), que interpretará temas do novo disco e clássicos, explorando formas pré e pós-verbais da linguagem numa proposta de desconstrução e metamorfose da lógica discursiva.
No segundo dia, o CDIL – Igreja da Misericórdia acolhe Joana Moher, também radicada em Barcelona, que apresenta Dare Be Being, editado pela Hearsay. Os seus poemas concretos, criados com carimbos e repetição, erguem-se como estruturas críticas à gentrificação e às desigualdades sociais, numa performance que envolve corpo, voz e público.
O encerramento decorre no Teatro Miguel Franco, com Paula Cortes, voz da Lisbon Poetry Orchestra, a interpretar Teatro, de Emma Santos, com tradução de Valério Romão e encenação de Sal Nunkachov. O texto, escrito em 1976, revisita o confinamento e a repressão nas instituições psiquiátricas, ecoando a dor do silenciamento forçado — “quando à força de medicamentos me obrigaram a calar”.
Segue-se Sara de Oliveira, artista da casa, com Tópicos Utópicos, uma manipulação ao vivo de fitas analógicas de discursos e orações, e o duo Luís Perdigão e Nuno Piteira com 2700 Dias de Ferro, performance que cruza spoken word, vídeo e música ao vivo numa reflexão sobre identidade, periferia e resistência.
Durante os dois dias haverá também uma banca de discos e livros relacionados com o universo da poesia sonora. A mostra presta ainda homenagem a Eugen Gomringer, pai da poesia concreta, falecido em agosto aos 100 anos, com o seu poema Silêncio impresso no tote bag oficial do evento.
Os bilhetes diários têm o custo de 9 euros, e o passe para os dois dias custa 15 euros.
Mais informações disponíveis em www.paperviewbooks.pt
letra² é uma coorganização da Paper View, Café Central e Câmara Municipal de Leiria, com apoios da Void, Farmácia Oliveira e Fundação Caixa Agrícola de Leiria.
